Zelo, perfeccionismo e a verdadeira natureza da queda
Há poucos anos, em uma conversa à porta de uma igreja, ouvi uma advertência que me levou a refletir sobre um tema que, à primeira vista, parecia não ter relação direta com Satanás.
O pastor havia visto uma fotografia minha nas redes sociais, sentado diante de um teclado durante um culto em outra igreja. Ao nos encontrarmos, sugeriu que eu conversasse com o responsável pela música da igreja para começar a tocar nos cultos de quarta-feira.
Eu estava havia bastante tempo sem tocar regularmente e respondi que precisava melhorar antes de assumir aquela responsabilidade. Não disse que precisava tocar perfeitamente. Tampouco que somente aceitaria tocar quando estivesse absolutamente livre de erros. Minha preocupação era muito mais simples: se eu assumisse uma responsabilidade diante da igreja, deveria estar adequadamente preparado para exercê-la.
Foi então que ouvi:
“Cuidado com o perfeccionismo, irmão. Foi isso que derrubou Lúcifer.”
Respondi imediatamente que não concordava. A meu ver, Lúcifer não desejou a perfeição de Deus. Desejou Seu lugar e Seu poder.
Aquela pequena conversa suscita uma questão bíblica importante: afinal, qual foi o pecado de Lúcifer?
Perfeccionismo não é excelência
Antes de examinarmos os textos tradicionalmente associados à queda de Satanás, precisamos distinguir duas coisas que frequentemente são confundidas: zelo pela excelência e perfeccionismo.
O perfeccionismo pode transformar-se em problema quando a pessoa estabelece para si mesma um padrão impossível, não admite qualquer falha e, por medo de errar, deixa até mesmo de agir. Nesse sentido, o perfeccionismo pode produzir ansiedade, frustração e paralisia.
O zelo é diferente.
Quem possui zelo reconhece que pode errar, mas entende que isso não o dispensa de se preparar. Procura fazer bem aquilo que assumiu como responsabilidade.
Essa distinção torna-se ainda mais importante quando estamos falando do serviço prestado a Deus.
O Salmo 33:3 diz:
“Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo.”
A expressão é significativa: “tocai bem”.
Não encontramos na Escritura a ideia de que despreparo seja evidência de espiritualidade. Dependência de Deus não significa negligência humana.
Em 1 Crônicas 15:22, Quenanias recebeu responsabilidade relacionada ao canto porque era entendido, ou habilidoso, naquela função. A capacidade não competia com a espiritualidade. Ao contrário, era colocada a serviço de Deus.
Portanto, dizer “preciso estudar antes de assumir essa responsabilidade” não equivale necessariamente a dizer “preciso atingir a perfeição antes de servir”.
Uma coisa é perfeccionismo. Outra é zelo.
Mas foi o perfeccionismo que derrubou Lúcifer?
Não é isso que encontramos nos textos bíblicos tradicionalmente relacionados à queda de Satanás.
É necessário fazer aqui uma observação exegética importante. Isaías 14 dirige sua profecia, em seu contexto imediato, ao rei da Babilônia. Ezequiel 28 dirige sua lamentação ao rei de Tiro. Há longa tradição interpretativa cristã que percebe, por trás das descrições desses governantes humanos, elementos que ultrapassariam aquelas personagens e apontariam para Satanás.
Mesmo adotando essa interpretação tradicional — e é justamente nela que normalmente se fundamentam afirmações sobre a queda de Lúcifer — os textos não apresentam o perfeccionismo como seu pecado.
Muito pelo contrário.
“Eu subirei”
Isaías 14:12–14 contém algumas das palavras mais conhecidas relacionadas à queda:
“Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! […] E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono […] Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.”
Observe a progressão.
Eu subirei.
Exaltarei o meu trono.
Eu me assentarei.
Subirei acima.
Serei semelhante ao Altíssimo.
Onde está o perfeccionismo?
Não está.
O que encontramos é autoexaltação.
A criatura deseja elevar-se. Não há ali um ser angustiado porque sua execução musical contém notas erradas, porque seu trabalho apresenta imperfeições ou porque deseja realizar determinada tarefa com excelência.
Há uma criatura olhando para cima e desejando uma posição que não lhe pertence.
O problema não é:
“Quero fazer tão bem quanto Deus.”
O problema é:
“Quero subir até onde Deus está.”
Essa diferença é fundamental.
E Ezequiel torna a questão ainda mais interessante
Ezequiel 28:12–17, na interpretação tradicional que relaciona a passagem também a Satanás, apresenta uma dificuldade ainda maior para a tese de que o perfeccionismo teria causado sua queda.
O texto diz:
“Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.”
Mais adiante:
“Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti.”
Se utilizarmos esse texto para falar de Satanás, surge uma ironia evidente: aquele cuja queda estaria sendo atribuída ao perfeccionismo é descrito pelo próprio texto como perfeito em seus caminhos antes que nele fosse encontrada iniquidade.
A perfeição não aparece como causa da queda.
Depois encontramos a causa da corrupção:
“Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor.”
Novamente, o problema é o coração elevado.
A criatura contempla aquilo que recebeu de Deus e passa a enxergar-se de maneira indevida. Sua beleza torna-se motivo de soberba. Seu resplendor deixa de apontar para o Criador e passa a alimentar a contemplação de si mesmo. Sua posição deixa de ser recebida como privilégio e passa a parecer insuficiente.
Não estamos diante de perfeccionismo. Estamos diante de orgulho.
O pecado está na direção do olhar
Talvez essa seja a diferença mais importante. O zelo pela excelência pode dirigir o olhar para a responsabilidade:
“Quero fazer bem aquilo que Deus colocou em minhas mãos.”
O perfeccionismo dirige excessivamente o olhar para o próprio desempenho:
“Não posso admitir que meu trabalho apresente qualquer imperfeição.”
Mas a soberba de Satanás vai além:
“A posição que recebi não me basta. Quero aquilo que pertence a Deus.”
São três coisas diferentes.
É perfeitamente possível que alguém comece buscando excelência e transforme essa busca em vaidade. Um músico pode desejar tocar bem para servir à igreja e, algum tempo depois, desejar tocar melhor que todos para ser admirado. O problema, nesse momento, não foi ter desenvolvido sua técnica. Foi ter mudado a finalidade de sua técnica.
Excelência pode tornar-se instrumento do orgulho. Mas excelência não é sinônimo de orgulho.
Deus não é glorificado pela negligência
Existe um perigo em determinados ambientes cristãos quando a crítica ao perfeccionismo acaba transformando o despreparo em virtude. “Deus conhece meu coração” não pode tornar-se desculpa para oferecer descuidadamente aquilo que poderíamos fazer melhor.
O músico deve estudar. O pregador deve estudar. O professor deve estudar.
Quem administra recursos da igreja deve fazê-lo com responsabilidade.
Quem ensina a Palavra deve manejá-la corretamente.
E tudo isso continuará sendo feito por seres humanos imperfeitos.
Buscar fazer melhor não significa acreditar que conseguiremos fazer tudo perfeitamente.
O zelo reconhece nossas limitações e trabalha apesar delas. O perfeccionismo pode não tolerar as limitações.
E a soberba esquece que tudo aquilo que possuímos foi recebido.
Uma outra situação
Bem mais recentemente, uma pessoa que eu deixei assumir a posição de mentora estava a me ajudar e me estimular a buscar o melhor no relacionamento com Deus. Até o momento em que começou a me criticar, baseada, talvez, em suas deficiências em absorver textos e, ao contrário, esquecê-los rapidamente, sobre a minha busca pela excelência, julgando que isso era soberba, etc, etc, etc. Criticou-me também sobre algo que eu havia contado a ela sobre um comportamento no passado, mas que já havia me arrependido, citando esses erros, sem levar em consideração que eu mesmo já havia dito que me arrependera e sem levar em conta os próprios erros na mesma matéria. Dizia que Deus a usava, apesar de suas deficiências em reter conhecimento. Ora, claro que Deus nos usa independentemente de nossas limitações, mas isso não é desculpa para nos acomodarmos e não buscarmos nos aperfeiçoar.
O que essas duas situações me mostram é que a impossível busca pela perfeição não nos deve acomodar, automaticamente, na mediocridade.
O que me fez deixar de consultá-la não foi o fato de que eu, supostamente, me julgo melhor do que ela, mas o de que ela usa confidências para posterior acusação e, pior, sem ter capacidade analítica de interpretação do que ouve para transformar isso em conselhos práticos e eficazes.
Afinal, qual foi o pecado de Lúcifer?
Se tomarmos Isaías 14 e Ezequiel 28 segundo a interpretação cristã tradicional que vê nesses textos uma referência que transcende os reis históricos da Babilônia e de Tiro, a resposta dificilmente será “perfeccionismo”.
Os elementos apresentados são outros:
orgulho, autoexaltação, corrupção da sabedoria, desejo de elevar o próprio trono e pretensão de ocupar uma posição que pertence somente a Deus.
Lúcifer não caiu porque desejou realizar perfeitamente aquilo para o qual havia sido criado. Caiu porque já não lhe bastava ser criatura.
Essa diferença não é pequena.
Ela nos ensina também alguma coisa sobre nosso próprio serviço a Deus: Não precisamos escolher entre mediocridade e perfeccionismo. Existe uma terceira possibilidade, muito mais bíblica:
excelência com humildade.
Estudar sem acreditar que sabemos tudo. Preparar-nos sabendo que ainda podemos errar. Desenvolver nossos dons sem esquecer de Quem os recebemos. Fazer o melhor possível sem transformar nosso desempenho em objeto de culto.
Talvez, portanto, a advertência adequada não seja:
“Cuidado com a excelência, porque ela derrubou Lúcifer.”
Mas:
“Busque a excelência, porém jamais permita que aquilo que Deus lhe deu faça você esquecer quem é Deus e quem é você.”
Porque zelo não é perfeccionismo. E perfeccionismo não foi o pecado de Lúcifer.
