Encontro, SECRETO, que dizem ser TREMENDO

Há ambientes religiosos em que determinadas experiências recebem uma importância tão grande que acabam funcionando como uma espécie de rito de passagem. A pessoa pode já ter professado fé em Cristo, frequentar a igreja, conhecer as Escrituras, servir ao próximo e demonstrar frutos cristãos; ainda assim, é informada de que não estará plenamente habilitada a exercer determinados ministérios enquanto não participar de um evento específico.

Em certos grupos ligados ao chamado modelo dos doze, esse evento é conhecido como “Encontro com Deus”. Muitas vezes, ele é anunciado como “tremendo”, cercado de expectativa, sigilo e linguagem espiritualizada. Os participantes são orientados a não revelar antecipadamente aquilo que ocorre no encontro, sob o argumento de que os futuros participantes não devem perder a surpresa ou a experiência.

Daí o título deste artigo:

Encontro, SECRETO, que dizem ser TREMENDO.

A questão não é negar que alguém possa ter uma experiência sincera com Deus durante um retiro, congresso ou período de oração. Deus pode usar uma pregação bíblica em muitos ambientes. O problema começa quando uma programação humana se torna uma espécie de requisito espiritual, quando práticas sem fundamento apostólico recebem autoridade quase sacramental e quando o encontro passa a ocupar um lugar que, no Novo Testamento, pertence à conversão, ao batismo, à comunhão da igreja e ao crescimento pela Palavra.

Este texto não pretende julgar as intenções individuais de todos os participantes ou líderes. Há pessoas sinceras nesses movimentos. Entretanto, sinceridade não transforma erro em verdade. Os bereanos foram elogiados porque examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo que ouviam era verdadeiro:

“Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.”
Atos 17:11

O padrão bíblico não é: “Foi tremendo, portanto veio de Deus.”

O padrão é:

Está de acordo com as Escrituras?

Um encontro com Deus não pode ser produzido por uma metodologia

Na Bíblia, os verdadeiros encontros com Deus não foram fabricados por roteiros humanos. Deus se revelou a Abraão, Moisés, Isaías, Paulo e tantos outros de acordo com sua soberania.

Jacó teve uma experiência extraordinária em Peniel:

“Àquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: Vi a Deus face a face, e a minha vida foi salva.”
Gênesis 32:30

Entretanto, o episódio não estabelece um método para retiros espirituais. O texto informa que Jacó ficou sozinho:

“Jacó, porém, ficou só; e lutava com ele um homem, até ao romper do dia.”
Gênesis 32:24

Jacó não estava cumprindo uma regra de silêncio porque se encontrava num ambiente chamado “Peniel”. Ele estava sozinho porque havia feito sua família, servos e bens atravessarem o ribeiro.

Transformar essa circunstância narrativa numa doutrina segundo a qual os participantes de um encontro não podem conversar uns com os outros é impor ao texto algo que ele não ensina.

Narrativas bíblicas descrevem acontecimentos. Nem todo detalhe narrativo constitui uma ordem para a Igreja. Caso contrário, alguém poderia concluir que, para ter uma experiência semelhante à de Jacó, precisaria atravessar um ribeiro, ficar sozinho durante a noite e lutar fisicamente com um ser misterioso.

A interpretação bíblica não funciona assim.

O segredo é incompatível com o padrão apostólico

O evangelho cristão não é uma doutrina reservada a iniciados. Jesus disse publicamente:

“Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto.”
João 18:20

Isso não significa que Jesus nunca tenha ensinado seus discípulos em particular. Ele o fez. Porém, o conteúdo da fé cristã não era uma sabedoria esotérica protegida por segredo institucional.

Paulo declarou:

“Porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus.”
Atos 20:27

E também:

“Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus.”
2 Coríntios 4:2

Quando um evento cristão não pode ter seu conteúdo examinado antecipadamente pela igreja, pelos familiares ou pelas Escrituras, surge uma pergunta legítima:

Por que algo supostamente bíblico precisa ser protegido pelo segredo?

A justificativa de que o segredo preserva a surpresa pode parecer inocente. Todavia, em ambientes de forte pressão emocional, o desconhecimento prévio reduz a capacidade de avaliação crítica. A pessoa entra sem saber exatamente a quais práticas será submetida, quais doutrinas ouvirá ou que tipo de exposição emocional lhe será exigida.

A fé cristã não precisa de emboscadas espirituais.

Maldição hereditária e a suficiência da obra de Cristo

Uma das doutrinas frequentemente associadas a esses encontros é a chamada maldição hereditária. Ensina-se que pecados ou práticas dos antepassados podem manter o cristão debaixo de vínculos espirituais que precisam ser identificados e quebrados mediante orações, renúncias e atos específicos.

A Bíblia reconhece que pecados podem produzir consequências familiares. Filhos podem aprender padrões destrutivos com os pais. Famílias podem perpetuar violência, vícios, idolatria e comportamentos pecaminosos.

Entretanto, consequência familiar não é o mesmo que condenação espiritual hereditária.

Ezequiel declarou:

“A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho.”
Ezequiel 18:20

No Novo Testamento, a situação daquele que está em Cristo é definida pela obra do Salvador:

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar.”
Gálatas 3:13

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
Romanos 8:1

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”
2 Coríntios 5:17

O cristão ainda luta contra o pecado. Pode carregar traumas, hábitos, tentações e consequências de decisões familiares. Mas sua libertação não depende de uma cerimônia secreta. A obra de Cristo não fica incompleta até que um líder descubra uma maldição ancestral escondida.

Atos proféticos não são técnicas espirituais

Profetas do Antigo Testamento realizaram atos simbólicos. Jeremias quebrou uma botija; Ezequiel representou simbolicamente o cerco de Jerusalém; Isaías andou descalço e parcialmente despido como sinal profético.

Esses atos ocorreram porque Deus deu ordens específicas a profetas específicos, em contextos específicos.

Eles não eram técnicas pelas quais qualquer pessoa pudesse criar uma realidade espiritual.

Hoje, muitas práticas são chamadas de “atos proféticos”: pisar em determinado lugar, ungir objetos, tocar paredes, escrever pedidos, quebrar símbolos, dar voltas ao redor de algo ou de algum lugar, ou realizar gestos que supostamente alterariam o mundo espiritual.

O problema é simples: onde Deus ordenou isso à Igreja?

Um ato só é profético quando decorre de verdadeira revelação divina. Sem uma palavra de Deus, o gesto pode ser emocional, simbólico ou teatral, mas não deve receber autoridade profética.

O suposto poder criador das palavras

Outro ensino comum é que as palavras humanas possuem poder para criar realidades. A pessoa é estimulada a “decretar”, “profetizar” e “liberar palavras” sobre sua vida.

A Bíblia ensina que palavras têm consequências. Elas podem ferir, consolar, enganar, orientar ou destruir reputações:

“A morte e a vida estão no poder da língua.”
Provérbios 18:21

Mas esse provérbio não transforma a fala humana em energia criadora.

Deus cria pela palavra:

“Disse Deus: Haja luz; e houve luz.”
Gênesis 1:3

Nós não somos pequenos deuses capazes de produzir realidade por declarações verbais. O cristão ora, pede, confia, submete-se e diz:

“Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.”
Tiago 4:15

A fé bíblica não é controle verbal do futuro. É confiança no Deus soberano.

Regressão não é discipulado cristão

Práticas de regressão, busca de lembranças ocultas, retorno imaginativo ao ventre materno ou reconstrução emocional do passado não pertencem ao método apostólico.

O Novo Testamento apresenta meios claros de crescimento:

  • ensino da Palavra;
  • oração;
  • comunhão;
  • confissão;
  • arrependimento;
  • disciplina;
  • renovação da mente;
  • atuação do Espírito Santo.

Paulo não conduzia os convertidos por regressões. Ele os ensinava a abandonar a mentira, revestir-se do novo homem e renovar a mente:

“E vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem.”
Efésios 4:23-24

O passado pode precisar ser compreendido e tratado. Porém, técnicas que induzem memórias ou interpretações espirituais podem produzir falsas lembranças, acusações injustas e dependência do líder.

“Meu discípulo” e “minha discípula”

Talvez uma das expressões mais reveladoras dessa estrutura seja:

“Meu discípulo.”
“Minha discípula.”
“Minhas doze.”

No Novo Testamento, os discípulos pertencem a Cristo.

Jesus disse:

“Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos.”
João 8:31

Ele não disse: “discípulos de Pedro”, “discípulos de João” ou “discípulos de um líder de célula”.

A Grande Comissão ordena:

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações.”
Mateus 28:19

O sentido não é criar discípulos pessoais dos missionários, mas levar pessoas a seguir Cristo, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a guardar tudo o que Jesus ordenou.

Paulo combateu diretamente a criação de partidos em torno de líderes:

“Cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado por vós?”
1 Coríntios 1:12-13

Mais tarde, ele perguntou:

“Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes.”
1 Coríntios 3:5

O líder pode dizer:

“Estou discipulando essa pessoa.”

Mas deveria evitar a linguagem possessiva:

“Ela é minha discípula.”

Discípulos pertencem a Jesus.

“Minha ovelha” também não existe

Jesus disse:

“Eu sou o bom Pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem.”
João 10:14

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.”
João 10:27

Somente Cristo pode dizer, em sentido pleno:

“Minhas ovelhas.”

Quando Jesus restaurou Pedro, ordenou:

“Apascenta os meus cordeiros.”
“Pastoreia as minhas ovelhas.”
“Apascenta as minhas ovelhas.”
João 21:15-17

Pedro recebeu responsabilidade, não propriedade.

Mais tarde, o próprio Pedro escreveu:

“Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós […] não como dominadores dos que vos foram confiados.”
1 Pedro 5:2-3

O rebanho é de Deus. Os líderes são responsáveis por cuidar dele sem agir como donos.

Paulo reforçou o mesmo princípio:

“Olhai por vós e por todo o rebanho […] para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.”
Atos 20:28

A igreja pertence a quem a comprou.

Nenhum pastor, apóstolo, missionário, mestre ou líder de célula derramou seu sangue para adquirir a Igreja.

Sacerdotes cristãos como classe privilegiada?

Alguns líderes gostam de ser chamados de “sacerdotes”, frequentemente usando o título para reivindicar honra, ofertas pessoais e tratamento especial.

No Antigo Testamento, havia um sacerdócio levítico específico, ligado à tribo de Levi e à descendência de Arão. Esse sacerdócio oferecia sacrifícios no sistema da antiga aliança.

Com a obra de Cristo, esse sistema alcançou seu cumprimento.

Jesus é o grande Sumo Sacerdote:

“Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote…”
Hebreus 4:14

Seu sacrifício foi único e suficiente:

“Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus.”
Hebreus 10:12

O Novo Testamento não cria uma nova casta sacerdotal acima dos demais cristãos. Ao contrário, todos os crentes formam um sacerdócio:

“Vós também […] sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo.”
1 Pedro 2:5

“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa.”
1 Pedro 2:9

Portanto, ou estamos falando do sacerdócio único e superior de Cristo, ou do sacerdócio de todos os crentes. Não há base para uma elite eclesiástica assumir privilégios levíticos.

A Igreja não é Israel

Grande parte da confusão nasce da tentativa de transportar seletivamente elementos da antiga aliança para a Igreja.

Israel possuía:

  • território;
  • governo civil;
  • sacerdócio levítico;
  • templo;
  • sacrifícios;
  • festas nacionais;
  • leis alimentares;
  • sistema de dízimos;
  • guerra nacional;
  • alianças específicas.

A Igreja é o Corpo de Cristo, formada por judeus e gentios unidos pela fé.

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos.”
1 Coríntios 12:13

A Igreja não é Israel, não foi Israel e nunca será Israel. O inverso também é verdadeiro: Israel não é a Igreja.

Deus possui propósitos relacionados a ambos, e confundi-los produz graves erros de interpretação.

Quando interessa reivindicar privilégios, alguns líderes recorrem ao sacerdócio, às primícias, aos altares e às honras do Antigo Testamento. Quando o mesmo Antigo Testamento impõe limites, tais textos são ignorados.

Deuteronômio, por exemplo, determinava:

“Homem recém-casado não sairá à guerra, nem se lhe imporá encargo algum; por um ano ficará livre em casa e promoverá felicidade à mulher que tomou.”
Deuteronômio 24:5

Essa lei pertencia à organização civil de Israel e não é uma ordem direta à Igreja. Entretanto, revela a incoerência de quem invoca o Antigo Testamento seletivamente para exigir privilégios sacerdotais, mas ignora suas disposições quando elas não favorecem o sistema.

Cristo deve crescer; o líder deve diminuir

João Batista compreendeu a essência do verdadeiro ministério:

“Convém que ele cresça e que eu diminua.”
João 3:30

Paulo disse:

“Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé; antes, somos cooperadores da vossa alegria.”
2 Coríntios 1:24

O líder bíblico não cria dependência pessoal. Ele não reúne pessoas para si. Não transforma discípulos de Jesus em patrimônio ministerial. Não usa títulos para receber honra que deveria ser dirigida a Cristo.

Ele ensina, serve, protege, corrige e, gradativamente, conduz o cristão à maturidade.

O resultado do discipulado saudável não é uma pessoa cada vez mais dependente do discipulador.

É uma pessoa cada vez mais firme em Cristo e nas Escrituras.

Conclusão

O problema do chamado “Encontro com Deus” não é o simples fato de ser um retiro. Igrejas podem promover retiros, períodos de oração e estudos bíblicos.

O problema é quando:

  • o evento se torna requisito espiritual;
  • seu conteúdo é protegido pelo segredo;
  • narrativas bíblicas são manipuladas;
  • doutrinas extrabíblicas são ensinadas;
  • a suficiência da obra de Cristo é enfraquecida;
  • pessoas são submetidas a práticas emocionais questionáveis;
  • líderes se apropriam dos discípulos e das ovelhas;
  • elementos de Israel são transplantados seletivamente para a Igreja;
  • títulos religiosos passam a justificar privilégios pessoais.

A Igreja não precisa de um encontro secreto para tornar completo aquilo que Cristo realizou publicamente na cruz.

As ovelhas pertencem a Jesus.

Os discípulos pertencem a Jesus.

A Igreja pertence a Jesus.

O sacerdócio pertence, em sentido supremo, a Jesus e, em sentido comunitário, a todos os que estão nele.

Os ministros são servos.

E todo verdadeiro ministério deveria conduzir à mesma conclusão:

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!”
Romanos 11:36

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