Por Sergio de Souza, para Bereanos.net
No vasto e complexo universo da fé cristã contemporânea, poucas afirmações geram tanto fervor e, ao mesmo tempo, tanta controvérsia quanto a ideia de que “sua palavra tem poder”. Essa máxima, popularizada em muitas vertentes evangélicas, sugere que o que falamos – seja positivo ou negativo – detém a capacidade de moldar nossa realidade, decretar bênçãos ou maldições, e até mesmo ditar o curso de “forças espirituais” em nosso favor ou contra nós. É um conceito que, à primeira vista, parece “empoderador“, convidando o crente a ser proativo em sua fé e a “confessar” o que deseja ver manifestado.
No entanto, para mim – sempre estudando para melhorar na minha área de atuação (finanças, contabilidade e tecnologia); blogueiro; e constante estudante de Teologia, Escatologia e, principalmente, da Palavra de Deus – essa interpretação tem sido, há muito tempo, um ponto de ceticismo e profunda reflexão. Minha descrença não vem de um lugar de dúvida sobre a ação divina ou a importância da fé, mas de uma convicção arraigada na soberania inabalável de Deus e na leitura contextualizada das Escrituras.
Se a palavra humana tivesse um poder tão absoluto e desvinculado da vontade divina, a própria lógica da fé seria invertida. Seria fácil demais. Eu poderia simplesmente “decretar” que “você, leitor, será milionário amanhã” ou, de forma perversa, que “você sempre será um fracasso”. Se tais declarações se concretizassem unilateralmente, onde estaria a soberania de Deus? Sua onipotência e onisciência seriam anuladas pela pronúncia de um mero mortal. Deus se tornaria um mero executor de nossos caprichos verbais, um tipo de gênio da lâmpada cósmico, à mercê de nossas confissões e “decretos”. Isso, para mim, não apenas contradiz a natureza de Deus revelada nas Escrituras, mas também rebaixa a complexidade da fé a uma fórmula mágica (à La Harry Potter).
A Sedução da Confissão Positiva: Uma Análise Crítica
A doutrina do “poder da palavra”, muitas vezes chamada de “confissão positiva” ou “teologia da prosperidade” em suas manifestações mais extremas, tem suas raízes em uma interpretação particular de versículos bíblicos. Alguns textos como os dois seguintes, são usados como base:
Provérbios 18:21 “A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto”
Marcos 11:23 “Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito”
A interpretação popular entende que esses versículos nos dão a capacidade de “falar coisas que não são como se já fossem“, criando nossa própria realidade através da verbalização da fé. Se você está doente, “confesse a cura“. Se está endividado, “decrete a prosperidade“. A falta de resultados, segundo essa lógica, é atribuída à falta de fé ou à “confissão negativa“.
Essa filosofia subjacente, contudo, se aproxima mais de um pensamento mágico do que de uma teologia bíblica robusta. Ela posiciona o ser humano como um co-criador ou, em alguns casos, até mesmo como o principal motor da sua própria realidade espiritual e material, relegando Deus a um papel secundário – o de um servo que cumpre as ordens verbais de seus seguidores. As consequências dessa visão são profundas e, muitas vezes, prejudiciais:
- Culpa e Julgamento: Aqueles que sofrem doenças, pobreza ou outras adversidades são frequentemente culpados por não terem “falado direito”, por terem “confessado negativamente” ou por terem “falta de fé”. Isso transforma o sofrimento humano em uma falha pessoal, desconsiderando a complexidade da vida, a ação do pecado no mundo e os propósitos soberanos de Deus.
- Arrogância Espiritual: Fomenta uma forma de orgulho espiritual, onde o crente acredita poder manipular resultados divinos através de suas próprias declarações, em vez de depender humildemente da vontade e da graça de Deus. Conta-se, nos meios cristãos, que duas irmãs estavam criticando, pelas costas, a conduta de uma terceira. Então uma delas disse “Deixa Deus me usar em profecia que ela vai ver o que é bom”.
- Ansiedade e Medo: Gera um constante estado de ansiedade e medo de “dizer a coisa errada”, de “atrair o mal” com palavras descuidadas. A espontaneidade e a liberdade na comunicação são tolhidas por uma vigilância obsessiva sobre cada pronúncia.
- Distorção da Natureza de Deus: Pinta um retrato de Deus como um ser que pode ser persuadido ou até mesmo obrigado por palavras humanas, em vez do Deus imutável, onisciente e onipotente, cujo caráter é amor, justiça e soberania absoluta.
Soberania Divina: O Alicerce da Nossa Fé
Para compreender o verdadeiro poder da palavra – e, mais importante, seus limites – precisamos retornar ao alicerce da fé cristã: a soberania de Deus. O termo “soberania” significa que Deus é o governante supremo e absoluto sobre toda a criação. Ele não tem conselheiros (Romanos 11:34), não precisa da permissão de ninguém e Sua vontade prevalece em todas as coisas (Isaías 46:10, Daniel 4:35, Efésios 1:11).
A Bíblia é categórica ao afirmar que Deus “faz tudo o que Lhe agrada” (Salmo 115:3). Sua vontade não é passiva, esperando a ativação por declarações humanas. Pelo contrário, é a nossa vontade que deve se alinhar à Dele, e não o oposto. A oração, por exemplo, não é uma ferramenta para ditar a Deus o que Ele deve fazer, mas um ato de humilde petição e intercessão, buscando a Sua vontade e confiando em Sua sabedoria (Mateus 6:10).
Se nossas palavras pudessem alterar o curso dos eventos independentemente da vontade de Deus, estaríamos elevando o ser humano a uma posição de divindade, o que é uma afronta à Sua majestade. A “liberdade” e o “poder” prometidos por essa (falsa) doutrina acabam, ironicamente, aprisionando o crente em uma lógica de desempenho e esforço humano, desviando o foco da graça e da providência divina.
Minha Jornada Pessoal: Do Estudo Bíblico à “Visão” Autoritária
Essa descrença na concepção mágica do “poder da palavra” não é apenas teórica para mim; ela foi forjada em uma jornada pessoal de fé e em experiências concretas dentro do ambiente eclesiástico. Por muitos anos, e especialmente antes de 2014, fui parte de “igrejas” que priorizavam uma abordagem que considero “bíblica”, ou seja, que valorizava o estudo sério das Escrituras, a Hermenêutica (a ciência da interpretação bíblica) e a Homilética (a arte de pregar e ensinar a Palavra de Deus de forma contextualizada e fiel ao texto original). Nelas, a Bíblia era a autoridade final e inquestionável, e qualquer ensinamento era diligentemente comparado e validado por ela e, por exemplo, na última delas, que fiquei entre 1998 e 2014 eu compunha o conselho de Ensino Bíblico, que escolhia o que seria ensinado na Escola Bíblica.
A partir de 2014, entretanto, minha trajetória tomou um rumo diferente. Saí dessa última igreja e comecei a frequentar outra, onde a dinâmica era drasticamente distinta. A interpretação da Palavra de Deus não seguia mais as regras da Homilética ou da Exegese cuidadosa. Em vez disso, a base para o ensino era uma suposta “Visão” ou “Revelação” que o líder da igreja tivera. Essa “Visão”, muitas vezes, era apresentada como algo diretamente recebida de Deus, acima de qualquer questionamento, e era o filtro através do qual todas as doutrinas e práticas eram entendidas.
O problema central era que essa “Visão” frequentemente contradizia, ou no mínimo distorcia, passagens claras da Bíblia. Meus anos de estudo e meu apreço pela fidelidade “escriturística” me impeliam a questionar. Eu tentava dialogar, apontar os versículos que pareciam estar em conflito com a “Visão” do líder, buscando uma compreensão mais alinhada com o texto sagrado. Esses foram momentos de inúmeros debates, onde eu, invariavelmente, “perdia”.
A razão da minha “derrota” não era a falta de argumentos bíblicos ou de lógica teológica. Era a imposição de uma máxima, não bíblica, mas onipresente naquele ambiente: “manda quem pode; obedece quem tem juízo”. Essa frase sintetizava a estrutura de poder: a autoridade hierárquica do líder, baseada em sua “Visão” e “Revelação”, suplantava qualquer tentativa de argumentação baseada na Escritura. A lealdade à “Visão” e ao líder era colocada acima da lealdade à Palavra de Deus, criando um ambiente onde o discernimento individual era desencorajado e a crítica, vista como rebeldia (espírito de Rebelião, para ficar mais pomposo). Quando questionei, por exemplo, sobre o falso ensino de “Maldição Hereditária”, inclusive para aqueles que já estão em Cristo, depois de diversos argumentos fracos (outra característica dos supostos “homens da autoridade espiritual”) como, por exemplo “você precisa ler o livro de fulano de tal”, todos rebatidos por mim e aos quais não houve mais argumento, o líder de segundo escalão disse “É assim porque o apóstolo disse que é”…
Parênteses: E é crucial ressaltar que essa dinâmica do “manda quem pode; obedece quem tem juízo” não está confinada apenas a ambientes onde uma “Visão” ou “Revelação” específica se sobrepõe à Bíblia. Infelizmente, uma variante igualmente perigosa dessa autoridade inquestionável pode ser encontrada mesmo em igrejas que se autodenominam “bíblicas” e prezam pela fidelidade às Escrituras. Nesses contextos, qualquer tentativa de questionar ou discordar de uma interpretação ou decisão pastoral, mesmo que embasada na própria Bíblia, pode ser recebida com frases do tipo: “Há membros que pensam saber mais do que o pastor” ou “Não devemos questionar o líder estabelecido por Deus”. Essa tática silencia o debate saudável e inibe o discernimento individual, criando um ambiente onde a autoridade da pessoa do líder, e não a clareza da Palavra, se torna o critério final para a verdade. Em ambos os cenários – seja pela “Visão” ou pela imposição hierárquica – o resultado é o mesmo: a autoridade bíblica é, na prática, secundarizada, e a busca bereana pela verdade é sufocada (fechamento de parênteses).
Nesse contexto de autoritarismo e repressão ao questionamento, a ideia do “poder da palavra” ganhava contornos ainda mais preocupantes. As declarações do líder, muitas vezes baseadas em sua “Visão” ou em sua interpretação “irrefutável”, eram tidas como decretos divinos, capazes de moldar a realidade e a vida dos fiéis. Questioná-las era como questionar a própria voz de Deus, o que me causava uma profunda angústia espiritual e intelectual. Essa experiência solidificou minha convicção de que o verdadeiro poder reside na Palavra de Deus e em Sua soberania, e não na autoridade autoproclamada ou na “visão” subjetiva de um homem.
Jó e a Ineficácia das Palavras Humanas Contra a Soberania Divina
Para ilustrar de forma ainda mais contundente essa verdade, não há exemplo mais didático e poderoso nas Escrituras do que o Livro de Jó. É uma narrativa que desafia fundamentalmente as noções simplistas de sofrimento, justiça divina e, crucialmente, a ideia de que nossas palavras podem determinar o destino.
Ao longo do livro, Jó é atormentado não apenas pela perda e pela doença, mas também pelos conselhos (ou acusações) de seus três amigos: Elifaz, Bildade e Zofar. Eles, operando sob uma teologia da retribuição simplista – onde todo sofrimento é resultado direto do pecado – tentam “explicar” a Jó a razão de sua calamidade.
No capítulo 15, Elifaz, em sua segunda intervenção, lança uma série de acusações contra Jó, atribuindo-lhe comportamentos ímpios e arrogantemente prevendo seu futuro. Ele declara:
Jó 15:29: “Nunca mais será rico, nem a sua fazenda permanecerá; a sua porção de terra não se estenderá.”
Elifaz não está apenas expressando uma opinião; ele está proferindo uma espécie de “profecia” ou “sentença”, baseada em sua suposta sabedoria e na interpretação que ele faz dos “pecados” de Jó. Suas palavras são carregadas de convicção e autoridade, como se tivessem o poder de selar o destino de Jó. Ele lista uma série de falhas – a iniquidade que ele “gestou”, a maldade que ele “concebeu”, e os enganos que ele “produziu” – e conclui que Jó “caíra em todas essas armadilhas” e “nunca mais seria rico” (poder da palavra?).
É o cenário perfeito para testar a ideia de que a palavra humana tem um poder intrínseco de manifestar a realidade. Elifaz, com sua “sabedoria” e autoridade percebida, proferiu uma maldição sobre o futuro financeiro de Jó.
No entanto, o que acontece no desfecho do Livro de Jó (capítulo 42) é a mais poderosa refutação a essa ideia. Após um longo e doloroso diálogo, e a intervenção divina, Deus surge da tempestade e repreende severamente os amigos de Jó. Ele diz a Elifaz:
“A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.” (Jó 42:7)
Deus não apenas desaprova as palavras de Elifaz e seus amigos, mas também restaura a Jó sua sorte, dando-lhe o dobro de tudo o que possuía antes (Jó 42:10). Jó se torna novamente um homem rico, com filhos e filhas, e vive muitos anos em prosperidade.
O que isso nos ensina sobre o “poder da palavra”? A palavra de Elifaz, proferida com convicção e autoridade, não teve qualquer poder sobre a vontade soberana de Deus. Ela foi ineficaz. O destino de Jó não foi determinado pela maldição de seu amigo, mas pela sabedoria, justiça e misericórdia de Deus. A narrativa de Jó demonstra claramente que:
- A vontade de Deus prevalece: Nenhuma palavra humana, por mais “poderosa” que pareça, pode anular ou alterar os planos soberanos de Deus.
- Deus é o juiz final: A prerrogativa de abençoar ou amaldiçoar, de conceder riqueza ou privação, pertence somente a Ele, e não pode ser usurpada por declarações humanas.
- A sabedoria humana é limitada: Elifaz, em sua presunção, interpretou erroneamente a situação de Jó e o caráter de Deus. Suas palavras foram frutos de uma compreensão falha, não de uma revelação divina verdadeira que teria o poder de se cumprir.
O Livro de Jó é um convite humilhante para que abandonemos a arrogância de achar que podemos manipular o divino com nossas palavras e, em vez disso, nos submetamos à complexidade da providência de Deus e à Sua perfeita sabedoria.
O Verdadeiro Poder da Língua: Responsabilidade e Influência
É claro que a Bíblia não nega completamente o “poder da língua”. Pelo contrário, ela nos adverte repetidamente sobre sua capacidade de construir ou destruir. Mas o contexto é fundamental. O poder da língua é primariamente moral, relacional e de influência, não um poder criativo mágico que anula a soberania de Deus.
- Poder para Edificar ou Destruir: Provérbios 18:21, que mencionei anteriormente, deve ser lido nesse sentido. Nossas palavras têm o poder de encorajar, consolar, ensinar e edificar (Efésios 4:29). Elas também têm o poder de ferir, difamar, caluniar e destruir reputações e relacionamentos (Tiago 3:5-8). O poder aqui é o da influência humana sobre o outro e sobre si mesmo, um reflexo do estado do nosso coração (Mateus 12:34).
- Poder para Proclamar e Confessar: Temos o poder de proclamar o Evangelho de Cristo, testemunhando da verdade divina. Temos o poder de confessar nossa fé (Romanos 10:9-10) e de louvar a Deus. Este é o poder de ser um mensageiro e um adorador, não um criador de realidades.
- Poder na Oração: A oração fervorosa de um justo tem grande poder (Tiago 5:16), mas esse poder reside na capacidade de Deus de ouvir e responder de acordo com Sua vontade, e não na capacidade de nossas palavras de forçar Sua mão.
A diferença é sutil, mas abismal: a língua é uma ferramenta poderosa para a expressão da fé, da verdade e da responsabilidade humana, mas não é um dispositivo para comandar Deus ou criar realidades independentes de Sua vontade. Nossas palavras são importantes porque refletem nosso coração e afetam nossos relacionamentos e nosso próprio ser, mas não porque detêm uma autoridade que se sobrepõe à do Criador.
Conclusão: Um Chamado ao Discernimento Bereano
A popularização da ideia de que “sua palavra tem poder”, tal como é frequentemente ensinada, é uma simplificação perigosa que distorce a teologia bíblica e, em última análise, a compreensão do caráter de Deus. Ela fomenta uma fé centrada no eu, onde a vontade humana tenta ditar a vontade divina, em vez de uma fé centrada em Deus, onde a vontade humana se curva à Sua soberania e sabedoria.
Minha jornada pessoal, marcada por debates onde a “Visão” e a autoridade humana eram colocadas acima da Bíblia (ou onde a voz do pastor silenciava o discernimento), apenas reforçou essa convicção. E a milenar história de Jó, com a ineficácia das “maldições” de Elifaz e a restauração soberana de Deus, é um testemunho eterno dessa verdade.
Como Bereanos que somos (Atos 17:11), somos chamados a examinar as Escrituras diariamente para verificar se o que nos é ensinado é, de fato, a verdade. Não devemos nos deixar levar por “visões” ou “revelações” que contradizem a Palavra escrita, nem por máximas autoritárias que sufocam o discernimento.
Há os que preferem “abandonar a fé”, dizendo que percebem muito autoritarismo e ordens sem sentido das lideranças. Um líder e pregador norte-americano já disse uma vez “a obediência ao líder nas igrejas está condicionada à obediência dele a Deus e à sua Palavra”. Eu não abandono a fé e hoje, após tantas divergências infrutíferas com os donos do poder e seus cegos seguidores subservientes, prefiro mudar de local onde me congrego com os irmãos do que querer convencer quem não quer ser convencido e foi ensinado a não pensar (como diz outro pastor brasileiro: “Jesus veio tirar seu pecado irmão, não o seu cérebro”).
A verdadeira liberdade e o poder genuíno em nossa fé não residem em tentar manipular a realidade com nossas próprias palavras, mas em alinhar nossa vida, nossas orações e nossas palavras com a inerrante Palavra de Deus e com a Sua gloriosa e soberana vontade. Que busquemos essa verdade com humildade e persistência.
Imagem: A Restauração de Jó